A perversidade da combinação

 

Como se escolhem os objetos que farão parte de nossas vidas? Que estarão nas paredes que criam as fronteiras de nossas intimidades, no chão que sustenta nossa casa, do teto que nos abriga, nas mesas que sustentam nossas necessidades? Nossa casa primeira, é nosso corpo, que cobrimos, cuidamos e adornamos conforme nosso estado de espírito, nossa personalidade, nossa herança familiar e cultural. Nossa segunda casa é aquela que habitamos com nosso corpo, onde guardamos nossos pertences, portanto a extensão de nossa história e saberes. Quais os critérios ao se preencher os cenários do encenamento de nossas vidas?

 

Ao ato de eleição e decisão espacial de onde depositar estes objetos, chamamos, decorar, mas não devíamos. Decorar significa ornar, enfeitar. Podíamos chamar a isto de composição entre nossa arqueologia pessoal e nossa quinquilharia funcional ou arranjo entre tecnologia e cultura, design e arte e outros tantas combinações mais adequadas.

 

Esta é uma pequena reflexão sobre um modo específico de escolha dos objetos de arte, aqueles que deveriam nos acessar pela mente e pela alma, e terem como função primordial, existir como um fim em si mesmo.

 

Em ambientes criados e decorados que geralmente vemos nos show rooms e eventos de decoração, o objeto de arte muitas vezes entra como um elemento-enfeite-harmonia, geralmente escolhido por sua cor e matéria, camuflado aos móveis e objetos de entorno, como uma extensão editada. Se espera destes, jamais concorrer com nada a sua volta e preferencialmente combinar com tudo a sua volta. Geralmente é o último elemento a ser escolhido e não uma inexorável questão que se põe a frente do projeto, como condição fundamental de escolhas que foram feitas ao longo da vida pelo habitante da casa em seu percurso de ser, que vê e pensa. É uma grande perda de autonomia e empobrecimento da intenção - principalmente da obra moderna e contemporânea (e incluo a arte popular com sua sapiciência e historicidade), de gerar mais que uma textura ou um padrão, uma reflexão, mesmo que sobre uma forma. Nos lembra a ironia cruel dos Monets que acabam em canecas e guarda-chuvas nas lojinhas de Museu.

 

Este fato poderia ser justificado em termos financeiros, pois faz sentido pensar que lojas de decoração vendem móveis, não arte, assim como um estilista não pode colocar adereços em seus desfiles que não sendo seus, concorram com suas roupas. É pertinente mas não suficiente. Há uma responsabilidade maior neste caso: é grande o número de profissionais que, para os clientes que não possuem sua própria coleção, os orientam tal qual descrevemos acima. A arte puramente decorativa e sempre encomendada, é uma arte dominada, dirigida, vazia. Tira o espaço de artistas, ávidos por viver de sua arte eloquente e elaborada, num país com um mercado mínimo de sustentação para estes e um Estado ausente de incentivo e planejamento mínimo para a área das artes visuais.

 

É de se esperar que os profissionais da arquitetura, mercado e decoração frequentem os museus, ateliês e galerias de todas as tendências, não só como um pesquisador, mas como um conhecedor de sua cultura, pelo simples fato de que qualquer profissional que lide com questões humanas, enriquece seu próprio trabalho com tal contato. Após a era da especialização, se faz urgente incrementar a interdisciplinaridade numa demanda de apreensão da complexidade do mundo contemporâneo.

 

Vale acrescentar que não se trata de um distanciamento, ou hierarquização de uma sobre a outra. Chamo atenção para uma ação de um sistema, viciado, instituído e do qual pouco se fala. Esta edição, este disfarce a que a arte é submetida anula a força que aquele espaço poderia transmitir caso fosse ocupado por uma arte autônoma, criada por artistas cujo trabalho detêm em si uma urgência e um mergulho mais profundo, ainda que com bons trabalhos formais. É um não à arte que não cria entraves, ambiguidades, confrontos, admiração, extasiamento, tensões, e outros consequências que fazem o mundo ser muito mais diverso e interessante. A permissividade, a liberdade e a mistura já são ingredientes essenciais em outras áreas, como a da moda, da dança, do cinema e da própria arte visual.

 

Cabe a nós artistas, diante disto, sermos mais contaminantes e transformar mais os espaços, como pretendemos transformar as cabeças.

 

Clarisse Tarran