Michel Groissman - MAM, RJ

Foto Sung Pyon Ho

Manual da Impermanência

 

Porta das Mãos, em exposição no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, é um convite imediato à interação entre o visitante e as fotos (duas das seis séries existentes), assim como os vídeos, registros de performances, ali apresentados. O trabalho resulta em uma equilibrada expressão entre as poéticas da dupla Michel Groisman e Sung Pyo Hong. Groisman, artista do corpo, dá continuidade às profundas investigações sobre si mesmo e Hong, fotógrafo de olhar extremamente sensível, pesquisador da luz que não utiliza em seu laboratório as usuais ferramentas digitais contemporâneas, chamado como um inventariante do gesto a testemunhar o processo de Groisman.

 

A dupla induz suavemente o espectador a uma gestualidade da forma e do ritmo das mãos em um processo delicadamente ofertado. Descoberto, desenvolvido e registrado ao longo de três anos, o trabalho teve a contribuição de Gabriela Duvivier na preparação corporal, utilizando a Técnica Alexander. A exposição acolhe ainda o trabalho de Nadam Guerra, tecendo um instigante diálogo.

 

Para “entrar” em Porta das Mãos o observador precisará entrar em si próprio. Desafiado a espelhar as enigmáticas formas fotografadas e, em um continuum, não perder a dança que se constrói, para que dois dedos nunca se separem, Porta das Mãos é também uma conversa neuro-anatômica, onde córtex e mãos seguem o fluxo do tempo em um caminho de remapeamento de si mesmo. Um comentário de sintonia fina, onde a fruição e o foco são imperativos em um mergulho interativo e lúdico, onde um espectador observa o movimento e a proposta do artista e começa um jogo, enquanto outro, que chega na seqüência, observa aquele que está interagindo com a obra. Michel Groisman provoca permanentemente, em linhas imaginárias, uma reconstrução eterna de circuitos, inventando in loco, um organismo incidental e vivo. Essa potencialização de novos gestos efêmeros, surpreendente contribuição do público visitante, agora não mais flagrada pela câmera de Hong, está disponível apenas instantaneamente. Cada gesto será transformado e apagado pelo subseqüente e, dessa estranha coreografia, nada restará a não ser a memória do observador.

 

A singela beleza desses gestos, ao mesmo tempo ligados a uma espécie secreta de comunicação íntima, também traz uma sutil caligrafia de signos excêntricos e emblemáticos, uma espécie de grafologia oriental simples e direta, com seus elementos de preto sobre o branco, que colocam em evidência a sensação de proximidade com o essencial, em detrimento do discurso gerado pela simples autonomia da imagem.

 

Clarisse Tarran e Mauro Espíndola

Artistas visuais

Durex Arte Contemporânea